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Depois das eleições, Tiririca evitou aparições públicas. Ele passou o mês de outubro em São Paulo, onde se reuniu com especialistas que fizeram todo tipo de teste para avaliar se ele sabia ler e escrever. Foram encontros reservados, aos fins de semana e feriados.

“A principal missão era avaliar o senhor Francisco Everardo sobre o ponto de vista global. Então, não só se ele era capaz de ler e escrever, mas como ele era capaz. Foram aplicados testes de inteligência. De QI mesmo”, explicou a fonaudióloga Ana Alvarez, contratada por Titirica para aperfeiçoar a leitura até os testes que seriam aplicados pela Justiça. Na primeira parte da prova aplicada ao comediante pela Justiça, o juiz ditou um trecho de um livro jurídico. Das dez palavras principais do texto, Tiririca errou oito e acertou apenas duas. As palavras que o comediante teve de escrever foram: promulgação, código, eleitoral, fevereiro, trazendo, grandes, novidades, criação, justiça e eleitoral.

“Às vezes um palavra que é com c-cedilha, às vezes, ele escreve com dois esses, ou vice-versa. Mas é perfeitamente legível e compreensível aquilo que ele escreve”, justificou o advogado de Tiririca, Ricardo Vita Porto.

Além dos erros de ortografia, Tiririca demorou oito minutos para escrever a frase completa. Ele teve dificuldades na hora em que o juiz leu “mil novecentos e trinta e dois”. Foi preciso soletrar os números.

Para o promotor Maurício Lopes, o resultado do ditado foi “sofrível”. Nos testes, foi mostrada ainda uma página de jornal. Tiririca demorou três minutos para ler o título e duas linhas. Ele também ignorou o “s” das palavras “lojas”, “produtos”, “vencidos”, “supermercados” e “multas”.

O comediante trocou ainda algumas palavras. “Punidas” virou “unidas”, “reincidentes”, virou “reincidiu”. Em vez de “infração”, ele leu “inflação”. Tiririca não soube explicar o que dizia o texto.

“Imagina a tensão de você estar numa sala com juiz, promotor, sendo questionada a sua alfabetização. Evidentemente que ele teve um desempenho muito pior do que aquele que ele comumente apresenta”, disse o advogado de Tiririca.  (aaaaaaaaaaa tá!)

O juiz deu mais uma chance ao deputado eleito. Em um novo teste, foi apresentado um texto que falava de um filme sobre Ayrton Senna, corredor brasileiro de Fórmula 1 que morreu em 1994. Tiririca se saiu melhor na leitura e só cometeu uma falha: a rivalidade “com [Alan] Prost” virou, na leitura do comediante, uma rivalidade “composta”. Mas ele se corrigiu.

“Ele entende por volta de 60% de todos os elementos que são os mais importantes da leitura. Mas o que é mais importante do que isso é que, com a retomada da leitura, ele entende 100%”, disse a fonoaudióloga. Tiritica terminou o teste de leitura escrevendo uma frase por conta própria. “Eles escreveu ‘não sou analfabeto’”, contou o advogado. Por orientação da fonoaudióloga, o comediante usou letra de forma para redigir a frase.

“Porque ele teria maior facilidade e maior rapidez para escrever”, explicou a especialista.

Para o juiz que aplicou os testes, Tiririca sabe ler, apesar da dificuldade da escrita. Ele não é totalmente analfabeto e, por isso, pode ser deputado.

Para o cientista político Humberto Dantas, o comediante terá dificuldades na atuação como parlamentar. “Ele terá dificuldades no que diz respeito a uma série de atribuições do seu cotidiano e terá naturalmente que contar com a ajuda de sua assessoria”, afirmou.  Francisco Everardo toma posse em fevereiro, de terno e gravata. Mas nada impede que ele use peruca e o chapéu de Tiririca.

O juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Aloísio Sérgio Rezende Silveira, absolveu nesta quarta-feira (1º) o deputado federal eleito Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, na ação penal que apurava se ele teria inserido declaração falsa, afirmando saber ler e escrever, entregue no pedido de registro de candidatura para as eleições 2010.

Silveira entendeu que basta o conhecimento rudimentar da leitura e da escrita para se afastar a condição de analfabeto. “A Justiça Eleitoral tem considerado inelegíveis apenas os analfabetos absolutos, e não os funcionais”, considerou o juiz.

O juiz afirma na sentença que Tiririca não é um analfabeto absoluto e portanto tem todas as condições de exercer seus direitos políticos.

“O acusado submeteu-se por duas vezes ao exercício da leitura, seguido de compreensão de texto, a afastar qualquer dúvida quanto a não ser um analfabeto absoluto, pelo menos para fins de exercício de seus direitos políticos”, diz o juiz na sentença.

De acordo com o juiz, “do conteúdo probatório trazido pela defesa e complementado pelo ditado simples, seguido de leitura e compreensão de texto, impõe-se a sua absolvição sumária quanto ao fato imputado no aditamento da denúncia, com fundamento no disposto no artigo 397, III do CPP (que o fato narrado evidentemente não constitui crime), tornando irrelevante a investigação sobre quem, como ou em que circunstâncias a declaração que continha a afirmação de que saber ler e escrever foi produzida”.

 promotor eleitoral Maurício Antonio Ribeiro Lopes disse nesta quinta-feira (11), após a audiência no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) de São Paulo, que deverá impetrar mandados de segurança para que a Justiça Eleitoral garanta a produção de novas provas na ação penal que apura irregularidades nas declarações de escolaridade e de bens do deputado federal eleito Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, o mais bem votado do Brasil, por 1,3 milhão de eleitores.

O promotor afirmou que Tiririca acertou menos de 30% do ditado a que foi submetido nesta quinta-feira para avaliar seu nível de alfabetização e teve resultado insatisfatório tanto neste teste quanto no exame de leitura.

“Em situações análogas, o Tribunal Superior Eleitoral considerou que seria alfabetizado quem acertasse 30% de um teste. Eu não vi 30% de acerto no ditado. Eu não encontrei isso”, disse o promotor.

Lopes não quis dar detalhes do desempenho de Tiririca. “Ele leu o jornal. Não vou fazer considerações sobre fluência e velocidade. No ditado, ele errou substancialmente. Não vou dizer quais foram os vocábulos que ele deveria escrever assim ou assado e que não escreveu. A leitura dele é melhor do que a escrita, mas segundo parâmetros do Ministério da Educação, para se considerar a pessoa alfabetizada, não temos apenas escrita. Temos leitura, escrita, interpretação e aritmética. Do ponto de vista do MP, a interpretação foi insatisfatória.”

“Não foi ele que fez o documento (declaração), não foi de próprio punho. Isso é uma questão. A outra é que no documento ele declara que sabe ler e escrever. No meu juízo de valor e para mero efeito do processo criminal, consultando a jurisprudência do TSE, considero que o resultado (do teste) é insatisfatório.”